Figas
VoltarSituado na Avenida 25 de Abril, o sistema de bicicletas partilhadas Figas apresenta-se como uma iniciativa da Câmara Municipal da Figueira da Foz para modernizar a mobilidade urbana. Financiado pela União Europeia, o projeto foi lançado com o objetivo de oferecer a residentes e visitantes uma alternativa de transporte mais ecológica e saudável, facilitando a deslocação pela cidade. Com um horário de funcionamento bastante alargado, das 06:30 às 23:00, sete dias por semana, a conveniência é, teoricamente, um dos seus maiores trunfos.
O conceito por detrás das Figas é louvável. Pretende-se reduzir o tráfego automóvel e promover um estilo de vida ativo, aproveitando as ciclovias da cidade. O sistema é composto tanto por bicicletas convencionais como por bicicletas elétricas, o que torna os passeios mais acessíveis a um público mais vasto, independentemente da condição física. A utilização é gerida através de uma aplicação móvel, que permite localizar estações, verificar a disponibilidade e desbloquear os veículos, um modelo tecnológico alinhado com as práticas de outras grandes cidades europeias. No entanto, a experiência dos utilizadores parece divergir significativamente da visão idealizada do serviço.
A Realidade do Serviço: Problemas de Manutenção e Cobranças
Apesar da proposta interessante, a realidade vivida por muitos utilizadores, e refletida nas suas avaliações, pinta um quadro problemático. Uma das queixas mais recorrentes e graves diz respeito à manutenção de bicicletas. Vários relatos apontam para veículos em mau estado de conservação, com mudanças que não funcionam corretamente e bicicletas "empenadas", o que não só compromete a qualidade da viagem como levanta sérias questões de segurança. Um serviço de aluguer de bicicletas, especialmente um que inclui veículos elétricos, tem a obrigação de garantir que o seu equipamento está em perfeitas condições de uso, algo que, segundo os testemunhos, parece não estar a acontecer de forma consistente.
Esta falta de manutenção adequada transforma o que deveria ser um passeio agradável numa experiência frustrante e potencialmente perigosa. Para um turista que deseja conhecer a cidade ou para um residente que precisa de se deslocar rapidamente, encontrar uma bicicleta defeituosa é, no mínimo, um grande inconveniente.
Falhas Técnicas e Cobranças Abusivas
Talvez o ponto mais crítico e alarmante partilhado pelos utilizadores seja a combinação de falhas técnicas com um sistema de cobrança implacável. Existem múltiplos relatos de situações em que a aplicação móvel indica que uma bicicleta foi desbloqueada, mas o veículo permanece preso na doca. O problema agrava-se quando, mesmo sem conseguir utilizar a bicicleta, o valor do aluguer é debitado do cartão de crédito do utilizador. Esta situação é descrita como "completamente inútil e abusiva" por quem a vivenciou.
Os valores cobrados nestas circunstâncias parecem ser desproporcionais. Há quem reporte ter pago 15 euros por uma tentativa de aluguer de 30 minutos que nunca se concretizou. Outro caso ainda mais extremo menciona uma cobrança superior a 50 euros por uma utilização de apenas 15 minutos em três bicicletas. Estes incidentes sugerem falhas graves no sistema de gestão e faturação, que penalizam o consumidor por erros que não são da sua responsabilidade. A falta de um serviço de apoio ao cliente eficaz, também mencionado nas críticas, apenas agrava a frustração, deixando os utilizadores sem recurso para resolver estes problemas de cobrança indevida.
Disponibilidade e Preço: Outros Pontos de Fricção
Para além dos problemas de manutenção e faturação, a disponibilidade de bicicletas é outra questão levantada. Utilizadores mencionam que, por vezes, há poucas unidades disponíveis nas estações, o que limita a fiabilidade do serviço como meio de transporte regular. Quando se combina a escassez de veículos com a possibilidade de os poucos disponíveis estarem avariados, a utilidade prática do sistema diminui drasticamente.
O preço também é considerado elevado por alguns, especialmente quando se pondera a baixa qualidade do serviço obtido. O custo de um serviço de mobilidade partilhada deve refletir a sua qualidade, fiabilidade e estado do equipamento. Quando estes fatores falham, o preço, por mais baixo que seja nominalmente, torna-se excessivo. A promessa de uma solução de mobilidade acessível perde-se quando os custos inesperados e a fraca qualidade da experiência se tornam a norma.
Uma Iniciativa Municipal com Necessidade de Supervisão
É importante notar, como um dos utilizadores bem assinalou, que as Figas são uma iniciativa da Câmara Municipal da Figueira da Foz. Isto significa que a responsabilidade final pela qualidade do serviço recai sobre a autarquia. As críticas e reclamações, embora expressas em plataformas online, deveriam talvez ser dirigidas diretamente à Câmara Municipal para que esta possa exercer a sua função de fiscalização sobre a entidade que explora o serviço. O próprio presidente da câmara, aquando do lançamento, reconheceu que a parte mais problemática deste tipo de negócio é a operação e a manutenção, garantindo que as bicicletas estejam funcionais e disponíveis. A experiência dos utilizadores sugere que esta é precisamente a área onde o sistema está a falhar.
Em setembro de 2024, foi anunciado que o sistema seria temporariamente desativado para a requalificação das estações e das bicicletas, com o objetivo de voltar a operar com melhores condições. Esta é uma admissão implícita dos problemas existentes e uma esperança para os futuros utilizadores. No entanto, até que o serviço seja restabelecido e demonstre uma melhoria significativa e consistente, os potenciais clientes devem abordá-lo com cautela.
o sistema Figas nasceu de uma ideia meritória e alinhada com as tendências de mobilidade sustentável. A sua localização central e horário alargado são pontos positivos. Contudo, os graves problemas reportados – desde a deficiente manutenção de bicicletas e falhas técnicas que resultam em cobranças indevidas e abusivas, até à falta de disponibilidade e apoio ao cliente – minam a sua credibilidade e utilidade. Potenciais utilizadores devem estar cientes dos riscos financeiros e da potencial frustração associados ao serviço no seu estado atual. A esperança reside na prometida requalificação, que terá de resolver estas questões de forma eficaz para que as Figas possam, finalmente, cumprir a sua promessa de ser uma mais-valia para a mobilidade na Figueira da Foz.